terça-feira, 28 de março de 2017

Contos e crônicas


O luthier

CÍNTHIA CORTEGOSO
cinthiacortegoso@gmail.com
De Londrina-PR

Pierre Chantal era um luthier que morava na casa cinza com muitas janelas. (1) Ele era francês. Também havia muitos gatos na casa, eram os seus “chats”, gatos em francês, mas sem pronunciar as duas últimas consoantes, simplesmente [chá]. A língua francesa é muito misteriosa, pois se escrevem todas as letras, mas nem todas são pronunciadas. O senhor Chantal também era misterioso e ainda construía violinos.
Dois dos gatos eram cinza; outros dois, brancos; outros dois, pretos e apenas um, malhado, com fundo branco e pintas amarronzadas, total de sete gatos. E como havia sete grandes janelas, cada gato se exibia, sentado, no parapeito de uma delas, e sabe-se lá como, cada dia um gato ficava numa janela, com rodízio em sentido horário, e durante a semana não se confundiam... gatos são gatos... inteligência, observação e uma certa metidez. E tanto lambiam seus pelos, suas patas. Tomavam, rigorosamente, o sol da manhã, sabiam a hora do almoço; à tarde passeavam pela redondeza e por volta das cinco e meia da tarde, antes de a empregada fechar as janelas e ir embora, os sete gatos retornavam para não mais saírem à noite, só, mesmo, no dia seguinte.
Quanto à empregada, ela se chamava Seraphine e trabalhava para o senhor Chantal há mais de trinta anos.
E o senhor Chantal, muito pouco, saía de casa. Ele transformou uma área bem grande de dentro da casa em sua oficina. As duas salas espaçosas se tornaram seu local de trabalho.
Naquela oficina com sete janelas, muitos violinos foram construídos. Violinos coloridos, grandes, pequenos, alguns que só tocavam músicas russas; outros, apenas músicas italianas; outros ainda, músicas japonesas; ainda outros foram construídos, simplesmente, para tocarem músicas sacras. Alguns violinos foram construídos para crianças; outros, para jovens; outros, ainda para adultos e uma quantidade, para as pessoas mais velhas.
O senhor Chantal amava construir violinos ou talvez isso o ajudava a esquecer algo. Ele construiu violinos durante quase toda a sua vida. Ele não se casou, não formou família, não teve filhos por isso não brincou com esses filhos; ele nem conheceu outros países, nem pessoas; nem quis ver mais vezes o céu, admirar as estrelas e sentir o calor do sol. Ele nunca foi à feira às terças-feiras; Seraphine quem ia, ela pagava as contas, fazia as compras e também cuidada da conta no banco. O senhor Chantal, a maioria das vezes, recebia o pagamento dos violinos por depósito bancário; outras poucas vezes recebia em dinheiro em sua oficina.
E os gatos... eles não foram comprados, nem buscados em algum lugar pelo senhor Chantal. Os gatos foram aparecendo, na verdade, um foi chamando o outro. E, incrivelmente, quando somaram sete, mais nenhum gato apareceu. Sete janelas; sete gatos.
Durante o dia todo, o senhor Chantal ouvia música clássica, calma, em volume baixo; os gatos pareciam gostar, pois ficavam sentados no parapeito da janela com os olhos mais fechados que abertos. Também eram calmos e nem miavam muito, só mesmo quando estavam com fome de leão. Mas a senhora Seraphine não os deixava com tanta fome assim, colocava ração para eles e também água limpa todos os dias pela manhã, se precisasse colocava mais água durante o dia, mas ração era só uma vez, mesmo assim, nunca ficaram com fome de leão.
No vidro de bolachas sempre havia umas bolachinhas de nata que Seraphine fazia; o senhor Chantal gostava de comer umas delas às quatro da tarde com uma xícara de chá e ele deixava algumas no canto de um pequeno tapete na sala para os gatos quando chegassem do passeio vespertino. Eles quase sempre comiam tudo.
Cada gato tinha um nome e todos os bichanos eram educados e mansos e eram sempre chamados pelo nome tanto por Seraphine quanto pelo senhor Chantal, mas o luthier pouco os chamava, ele só queria mesmo construir violinos. Isso não quer dizer que ele não gostava deles, apenas não os chamava, pois os bichanos sempre estavam por perto e estes também gostavam do senhor Chantal e gostavam também de Seraphine. Era na verdade, um relacionamento sem cobranças, só isso.
Senhor Chantal e Seraphine pouco se conversavam, mas muito se entendiam.
Há uma revelação: ele, todo dia 15 de cada mês, saía às oito horas da manhã, com algumas flores colhidas de seu jardim, e retornava entre dez e dez meia.
Senhor Chantal trabalhava com roupas formais, calça com vinco, camisa de manga comprida, normalmente de cor clara, e suspensórios. Vestia-se assim, pois se algum cliente chegasse já estava arrumado para recebê-lo, era isso que um dia explicou para Seraphine. E ele recebia encomendas de vários países, mas essas encomendas ‒ os violinos ‒ eram feitas por telefone. Então, depois de prontos, os violinos eram despachados pelo correio que vinha busca-los na casa do luthier.
Sábados e domingos eram dias comuns, de muito trabalho, apenas o fazedor de violinos encerrava o expediente às quatro da tarde, hora do chá com bolachas, e ia conferir seu belo jardim feito, aos pouquinhos, durante cada sábado e domingo depois das quatro ao longo da vida.
Com as mãos, enlaçadas, para trás das costas, o senhor Chantal observava as flores e sabia detalhes de cada uma. Olhava minuciosamente e também conversava com elas; isso ele havia aprendido quando era bem criança, com seu avô que o criara, este lhe havia ensinado que as plantas tinham sentimento. E esse aprendizado fora muito apreciado por Pierre Chantal.
E observava e fazia um carinho de leve nas folhinhas, mas não em todas, eram muitas. E naquele domingo, depois de o jardim ter sido observado pelo olho clínico do próprio cultivador e também de ter sido regado, pois o senhor Chantal usava um belo regador antigo e afirmava, nas poucas palavras, que a regagem por regador era mais carinhosa, o homem se recolheu quase seis da tarde; as andorinhas buscavam os ninhos, todo mundo quer voltar para casa, para quem ama. O sol estava alaranjado e bem fraquinho sumindo no horizonte. O dia estava acabando para começar a noite.
E para o senhor Chantal, a noite não era tão bem-vinda, era o período que podia ouvir mais os sentimentos, sentir mais saudade... saudade.
Os gatos eram os companheiros, mas eles eram quietinhos e dormiam cedo, logo depois de comerem alguma ração sobrada no potinho ou algum restinho de bolacha no tapete.
Mais uma noite e o senhor estava sozinho, em sua casa, com a saudade e os sentimentos.
Ele gostava de assistir a programas sobre cultura e músicas clássicas, mas, muitas vezes, apenas olhava para a tela da TV sem assistir a nada. E quando algum programa apresentava concertos com peças mais dramáticas, então, seu olhar ainda mais se perdia no espaço e algumas lágrimas escorriam pela face do senhor francês.
E nessa noite, quando a saudade não cabia mais em seu peito, e a tristeza o tomara, senhor Chantal, em desespero, suplicou a paz que há muito não sentia, desde quando começou a construir violinos. Num ato desatinado, encolhendo-se na poltrona, com a face banhada, começou a verbalizar sua dor...
‒ Há quanto amo, há quanto sofro... nada mais me resta. Desde aquele 15 de abril do fatídico ano, não mais pude viver... sobrevivo, pois sou insignificante demais para me tirar o que Deus me concedeu... mas confesso que muito já pensei ‒ falava com voz alta que há muito não se ouvia. ‒ Por quê? Por que com tanto amor não tive tempo de doar... para minha Gabrielle... que me deixou por, equivocadamente, comer uma pequenina fruta venenosa, pensando que fosse uma doce fruta comum no parque onde passeávamos uma semana antes de nosso casamento... Por quê? Ajude-me, Pai!
O senhor Pierre Chantal desfaleceu na poltrona. Certamente, vai melhorar, pois fora a primeira vez que exteriorizou seu sofrimento; a cura, enfim, começara.
Sou o primeiro violino a ser construído pelo grande luthier. Sou o início da fase da construção da alegria para muitos corações por meio da música, já que o do senhor francês vivera até agora na aflição dos dias, entretanto, poderá, a partir de hoje, sentir os acordes com mais leveza, pois se permitiu chorar e revelar a dura dor; o pedido de ajuda estava feito, a bondade divina poderá finalmente operar.
A partir do fatídico dia é que o senhor Chantal começou a construir violinos; “Gabrielle amava o som dos violinos”, o senhor Chantal sempre murmurava.

(1) Luthier (palavra francesa, de luth, alaúde: leia-se lutiê): artesão que fabrica ou repara instrumentos de corda com caixa-de-ressonância.
   

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segunda-feira, 27 de março de 2017

As mais lindas canções que ouvi (235)


Brilho

Vansan


Existe um brilho em você,
que me atrai e me trai,
fazendo mais e mais a amar,
não sei por quê.

Existe um brilho em seus olhos
que me chama a atenção,
 e põe mais perto minhas mãos
de suas mãos...

Existe luz nesse brilho,
 existe amor nessa luz
e cada vez que eu a vejo
 desejo mais conhecer
 por que essa luz tão intensa?
por que essa chama ainda acesa?
 por que amar tanto assim você?




Você pode ouvir a canção acima, na voz do intérprete abaixo, clicando no link indicado:





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domingo, 26 de março de 2017

Reflexões à luz do Espiritismo


O jovem de hoje, é bom lembrar, foi o idoso de ontem

Devemos ao Espiritismo a importante notícia de que nossas existências fazem parte de um longo processo, em que passado, presente e futuro se apresentam entrelaçados, como elos de uma mesma corrente.
É natural, portanto, que os jovens de hoje revelem um idealismo, uma força de vontade, uma busca de mudanças que as pessoas de idade mais avançada geralmente não mostram, ressalvadas, evidentemente, as compreensíveis exceções.
Esse fato, tão conhecido de todos nós, não é difícil de compreender. É que o jovem de hoje foi o idoso de ontem, de existências que se foram, e por isso sente naturalmente – sem ter lembrança alguma do passado – que tem também responsabilidade pelas nódoas, pelos erros, pelos crimes que fizeram com que a sociedade terrena chegasse à condição em que nos encontramos.
Suas aspirações de mudança são legítimas, mas os desafios e os obstáculos são muitos e complexos.
Como reverter o estado de beligerância que caracteriza a sociedade atual?
Como extinguir a corrupção, as desigualdades, os preconceitos?
Como implantar a paz, a fraternidade, a convivência pacífica entre os povos?
Ante tais problemas é fácil deduzir que não se trata de tarefas para uma única geração, mas para muitas. É preciso, todavia, dar o primeiro passo e nesse sentido o papel da juventude é da maior relevância.
Como diz o jovem Victor Abranches em entrevista publicada recentemente na revista “O Consolador”, a mocidade tem “a missão de transformar o mundo em aspectos mais profundos, e ao mesmo tempo mais sutis, do que as mudanças que vêm ocorrendo devido às últimas gerações”. E tem ainda, segundo ele, “uma outra grandiosa missão: a de preparar a próxima geração para dar continuidade à evolução da Humanidade e, consequentemente,  do planeta”. [Cf. http://www.oconsolador.com.br/ano10/464/entrevista.html ]
Sobre os sonhos da mocidade, muitos dos quais fenecem em pouco tempo, geralmente antes mesmo do seu ingresso na fase da chamada maturidade, é bom lembrar uma importante lição consignada por Emmanuel em sua obra Caminho, Verdade e Vida, psicografada pelo médium Francisco Cândido Xavier:

Quase sempre os que se dirigem à mocidade lhe atribuem tamanhos poderes que os jovens terminam em franca desorientação, enganados e distraídos.
Costuma-se esperar deles a salvaguarda de tudo.
Concordamos com as suas vastas possibilidades, mas não podemos esquecer que essa fase da existência terrestre é a que apresenta maior número de necessidades no capítulo da direção.
O moço poderá e fará muito se o espírito envelhecido na experiência não o desamparar no trabalho.
Nada de novo conseguirá erigir, caso não se valha dos esforços que lhe precederam as atividades. Em tudo, dependerá de seus antecessores.
A juventude pode ser comparada a esperançosa saída de um barco para viagem importante. A infância foi a preparação, a velhice será a chegada ao porto.
Todas as fases requisitam as lições dos marinheiros experientes, aprendendo-se a organizar e a terminar a viagem com o êxito desejável.
É indispensável amparar convenientemente a mentalidade juvenil e que ninguém lhe ofereça perspectivas de domínio ilusório.
Nem sempre os desejos dos mais moços constituem o índice da segurança no futuro.
A mocidade poderá fazer muito, mas que siga, em tudo, “a justiça, a fé, o amor e a paz com os que, de coração puro, invocam o Senhor”. (Caminho, Verdade e Vida, cap. 151.)



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sábado, 25 de março de 2017

Destaques da semana da revista “O Consolador”




Encontra-se desde já disponível na Web a edição semanal da revista O Consolador, cujos destaques vão abaixo relacionados, seguidos dos respectivos links:

Destaques da edição 509

Já está disponível na Web a edição deste domingo da revista O CONSOLADOR.
Marilda Budoia de Aguiar Silva, da cidade de Cafelândia (SP), é a nossa entrevistada.
“Homossexualidade” é o tema do Especial escrito por Hugo Alvarenga Novaes.
Um público numeroso assistiu à conferência que Divaldo fez no dia 16 em Ponta Grossa.
Saiba o que ocorre nesta semana no movimento espírita brasileiro.
Anote e acompanhe os eventos espíritas internacionais da semana.
“Toda forma de amor é legítima” é o título do nosso editorial.
De um leitor: - O idioma utilizado no Mundo Extrafísico entre os espíritos é o Esperanto?
Os arrastamentos que sofremos são irresistíveis?
São muitas as bênçãos que o dinheiro pode propiciar?
De uma leitora: - Em que consiste o grupo chamado GERA e como participar?
“O valor das pausas entre as conversas.” (Christina Nunes)
“Não há edifício sem base, tanto quanto não existe realização sem esforço.” (Emmanuel)
“Parábola do semeador: reflexões.” (Claudio Viana Silveira)
Florence Marryat também fez experiência com manifestações de vivos?
“As más experiências de uma criança acompanham-na a vida inteira.” (Neio Lúcio)
“Misericórdia.” (Felinto Elízio Duarte Campelo)
“Deus escreve certo por linhas certas!” (Meimei)
“Onde está Deus?” (Hyerohydes Gonçalves)
A oração tem o poder de mudar o ambiente psíquico desfavorável?
“Sou um médium comum, falível como qualquer outro.” (Chico Xavier)
“Deus absoluto e incriado é pai; e Deus relativo e criado é irmão.” (José Reis Chaves)
“Evitu temojn, kiuj malplaĉas al aŭdanto.” (André Luiz)
“Surfando na onda de água e lama.” (Maria Angela Miranda)
Há diferença entre a metempsicose e a doutrina da reencarnação?
“A aparição tinha ocorrida às 23 horas” – esta frase está correta?
“Procedimentos para afastar os maus Espíritos.” (Rogério Coelho)
“Sombra” – soneto de Hermes Fontes psicografado por Chico Xavier.
“Há mais coisas entre o céu e as células do que sonha nossa vã filosofia.” (W. Balbo)




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Contos e crônicas


Victor Hugo e o Espiritismo

JORGE LEITE DE OLIVEIRA
jojorgeleite@gmail.com
De Brasília-DF

— É... Joteli, foi ali que Victor Hugo realizou suas inúmeras experiências...
— Ali onde e que experiências, amigo?
— Na ilha de Jersey, para onde foi desterrado em 5 de agosto de 1852 por Napoléon le Petit, como ousara chamar o Imperador francês, Napoleão III.
Quanto às experiências, trata-se de sessões mediúnicas com base nas respostas de uma “mesa falante”, que em sua época respondia por pancadas às perguntas feitas a uma entidade invisível. Esse ser, que dizia ser o espírito de alguém falecido, satisfazia à curiosidade de todas as pessoas com respostas inteligentes às questões a ele propostas.
Victor Hugo estudou obras de Pitágoras, de Swedenborg e da Cabala, que, antes mesmo de Allan Kardec publicar as obras espíritas, demonstravam sua crença em seus pontos básicos, como a sobrevivência do espírito à morte do corpo físico, sua manifestação a nós, a elevação gradual do espírito e mesmo suas “migrações sucessivas”...
Uma de suas frases, publicada no Journal de l’Exil de agosto de 1852, que parece ter sido parafraseada por Léon Denis, na obra O problema do ser, do destino e da dor, é a seguinte: “A vida mineral passa à vida orgânica vegetal; a vida vegetal torna-se vida animal, cujo espécime mais elevado é o macaco. Acima do macaco, começa a vida intelectual, escala invisível e infinita pela qual cada espírito se eleva na eternidade, tendo Deus por coroamento”.1
Anos depois, residindo em Marine-Terrace, Hugo comunicou-se com o espírito chamado Dama Branca, que desenhou seu retrato com um lápis adaptado a uma mesinha. Dias após, indo a um enterro, o grande poeta francês, ao curvar-se sobre a cova do falecido, viu a forma do desenho da Dama Branca, suavemente luminosa, deitada na cova ainda vazia.
— E ele... não tinha medo?
— Até que tinha, mas, com o tempo, foi acostumando-se... O fato é que Victor Hugo foi secretário de várias manifestações mediúnicas, reunindo em três cadernos suas anotações provenientes das perguntas e respostas dadas pelos espíritos...
Nessas reuniões, foram anunciadas as visitas das mais variadas personalidades desencarnadas que, ora estavam presentes, ora não... Ainda darei notícias delas aos nossos leitores ávidos das novidades do Além.
— E o que mais disse o genial poeta, Bruxo do Cosme Velho?
— Dentre outras frases estupendas, separei esta:

Há meio século que escrevo meu pensamento em prosa e em verso: história, filosofia, dramas, romances, lendas, sátiras, odes, canções etc.; tudo tenho tentado, mas sinto que não disse a milésima parte do que está em mim. Quando me curvar para o túmulo, não direi como tantos outros: terminei minha jornada. Não, a sepultura não é um beco sem saída, é uma avenida; ela se fecha no crepúsculo, ela se reabre na aurora (Victor Hugo).2 

Carácoles, Machado! genial, poesia pura. Só mesmo Victor Hugo e você para escreverem algo tão profundo e belo.
— Sou mais irônico e frio prosador do que poeta; Hugo é mais poesia em prosa e em verso do que ironia. Ambos, porém, refletimos sobre a ignorância e as incoerências humanas... A bientôt, mon ami!
Au revoir, ami; merci.


1 WANTUIL, Zêus. As mesas girantes e o espiritismo. 2. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1978, p. 156.
2 Id., p. 158.







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sexta-feira, 24 de março de 2017

Iniciação aos clássicos espíritas




Por que creio na imortalidade da alma

Sir Oliver Lodge

Parte 8

Damos prosseguimento ao estudo metódico e sequencial do livro Por que creio na imortalidade da alma, de autoria de Sir Oliver Lodge, de acordo com a tradução feita por Francisco Klörs Werneck, publicada pela Federação Espírita do Estado de São Paulo em 1989.
Esperamos que este estudo constitua para o leitor uma forma de iniciação aos chamados Clássicos do Espiritismo.
Cada parte compõe-se de:
1) questões preliminares;
2) texto para leitura.
As respostas correspondentes às questões apresentadas encontram-se no final do texto indicado para leitura. 

Questões preliminares

A. Que é que Lodge fala sobre o conteúdo das comunicações dos Espíritos?
B. Como Lodge considerava as palestras mantidas com os Espíritos?
C. Por que para algumas pessoas é difícil acreditar nas comunicações mediúnicas?

Texto para leitura

92. Como exemplo de comunicações com os mortos, Oliver Lodge relata diversos trechos de palestras realizadas com seu filho Raymond, então desencarnado, a respeito do Além e das condições da vida post mortem. (PP. 65 e 66)
93. Lodge mostra, com esse relato, que as palestras com o Além não se limitam aos afazeres domésticos e a outras ninharias, mas, com frequência, tratam de assuntos mais elevados e mais generosos. (PP. 66 e 67)
94. Os diálogos transcritos datam de 16 de setembro de 1927. A médium é a senhora Gladys Osborne Leonard e o comunicante é Feda, uma índia americana que desencarnou mocinha. Feda é, no caso, uma mera intermediária de outros Espíritos, como Myers e Raymond, e transmite o que eles lhe dizem. (P. 67)
95. Eis algumas informações contidas nesses diálogos: I) Aos Espíritos protetores é permitido auxiliar-nos por todos os meios que não afetam o nosso livre-arbítrio. II) Os protetores espirituais não têm permissão para hipnotizar-nos e fazer-nos mudar de intenção, mas podem sugerir-nos algumas coisas e recordar certas condições, esperando que mudemos de resolução por nós mesmos. III) A evolução do Espírito é toda a razão de ser da vida. IV) O livre-arbítrio é o fator que permite ao homem escolher entre o bom e o mau: os Espíritos não podem escolher em nosso lugar. V) Os protetores espirituais podem conduzir-nos ao bom caminho, sem nos forçar, e, se escolhemos tal caminho, lhes é permitido ajudar-nos por todos os meios possíveis. VI) Pode-se modelar o corpo etérico de uma coisa – um piano, um relógio, uma mesa – amando-a e gostando de sua companhia. Assim se lhes imprime uma espécie de vida etérica, se lhes dá o molde mental ou a forma etérica dela. (PP. 68 a 70)
96. A modelagem do corpo etérico de um objeto é, segundo Raymond, algo semelhante a uma materialização às avessas. Depois de dizer isto, Raymond informou que ele e os Espíritos não veem as coisas materiais. “Quando dizemos que fazeis tal ou qual coisa é porque os vossos pensamentos nos orientam.” (P. 70)
97. Cauteloso, Oliver Lodge adverte, ao fim desses diálogos: “Não preciso dizer que considero essas palestras como um debate entre amigos e em que ninguém é infalível, embora alguns estejam mais bem informados do que outros. Não se deve considerá-las como oráculos, porém bastas vezes são sugestivas. Toda tendência para muita fé em informação obtida de outro modo que não pelos nossos próprios esforços deve ser desaprovada”. “Isso pode ser demonstrado por exemplos da Antiguidade.” (P. 72)
98. Examinada, em seguida, a questão dos oráculos e sua validade, Lodge menciona a notável experiência de Creso, rei de uma grande parte da Ásia Menor, a qual comprova o valor dos oráculos quando consultados seriamente. Seis mensageiros foram enviados por Creso a seis oráculos diferentes, os mais famosos de seu tempo, desde a Grécia do Norte até à longínqua Líbia. No centésimo dia de sua partida, eles deveriam perguntar aos oráculos o que Creso fazia em tal momento, trazendo por escrito sua resposta. (P. 73)
99. Heródoto diz ter tomado ciência apenas da resposta dada por uma pitonisa de Delfos, que satisfez plenamente o rei Creso, porque era, entre todas, a mais clara. O rei Creso, que só decidiu o que fazer no último momento, quando chegou o dia pretendido, cortou em pedaços uma tartaruga e um carneiro e os fez cozinhar juntos em um caldeirão de bronze, fato que a pitonisa de Delfos descrevera em versos hexamétricos que se tornaram famosos. (PP. 73 e 74)
100. O resto da história, todo mundo sabe, não foi tão feliz, porque Creso, fiando-se imprudentemente no oráculo, enviou uma segunda pergunta a propósito de sua projetada invasão da Pérsia. A resposta recebida dava lugar a dupla interpretação e ele agiu segundo a pior, com resultados desastrosos. Ciro, que o venceu em batalha, antes de executá-lo ouviu-o citar Sólon: “Não chameis nenhum homem de feliz antes de estar morto” e, magnânimo, poupou-lhe a vida. (P. 74)
101. Lodge diz que uma das razões pelas quais certas pessoas acham que é difícil acreditar nas comunicações mediúnicas é que elas não fazem nenhuma ideia do seu processo, de modo que isso lhes parece estranho e impossível. Ora, se fizermos a análise do processo da conversação entre nós, encarnados, descobriremos aí traços tão bizarros como aqueles que encontramos na literatura espírita. (P. 75)
102. Se queremos comunicar-nos com nossos companheiros, clara e inteligentemente, é preciso fazer mais do que pensar as ideias que desejamos enviar: é preciso dizê-las ou escrevê-las e com este fim empregar um cérebro e um mecanismo nervoso para pôr em ação certos músculos. Em outros termos, é preciso governar uma máquina corporal de modo que ela seja impelida a fazer sinais convencionais em uma folha de papel ou produzir vibrações na atmosfera de um modo previamente estabelecido, chamado linguagem. (P. 77)
103. Estamos de tal forma habituados a esse método de comunicação oral ou pitoresca, que ele nos parece não só natural, mas inevitável; todavia, não é verdadeiramente um processo simples, porquanto tanto mais o analisamos mais ele nos surpreende. (PP. 77 e 78)
104. Quando refletimos sobre a natureza verdadeira da palavra, da escrita e da produção artística, é inteiramente surpreendente que as ideias e as emoções possam ser transmitidas dessa maneira. (P. 78)

Respostas às questões preliminares

A. Que é que Lodge fala sobre o conteúdo das comunicações dos Espíritos?
Ele mostra, em sua obra, que as palestras com o Além não se limitam aos afazeres domésticos e a outras ninharias, mas tratam, com frequência, de assuntos mais elevados e mais generosos. (Por que creio na imortalidade da alma, págs. 66 e 67.)
B. Como Lodge considerava as palestras mantidas com os Espíritos?
Ele as considerava como um debate entre amigos, em que ninguém é infalível, embora alguns estejam mais bem informados do que outros. Não devemos considerá-las como oráculos, embora sejam bastas vezes sugestivas. Toda tendência para muita fé em informação obtida de outro modo que não pelos nossos próprios esforços deve ser desaprovada. “Isso pode ser demonstrado por exemplos da Antiguidade.” (Obra citada, pág. 72.)
C. Por que para algumas pessoas é difícil acreditar nas comunicações mediúnicas?
Uma das razões pelas quais certas pessoas acham difícil acreditar nas comunicações mediúnicas é que elas não fazem nenhuma ideia do seu processo, de modo que isso lhes parece estranho e impossível. Mas, se fizermos a análise do processo da conversação entre nós, encarnados, descobriremos aí traços tão bizarros como aqueles que encontramos na literatura espírita. (Obra citada, pág. 75.)

Nota:
Links que remetem aos 5 textos anteriores:







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