terça-feira, 18 de agosto de 2015

Gente de cá e gente de lá



CÍNTHIA CORTEGOSO
cinthiacortegoso@hotmail.com
De Londrina-PR

Naquele vilarejo chileno, as crianças tinham mais liberdade do que as da cidade. Menos preocupação com o trânsito, pois eram apenas alguns carros a transitarem por lá. Não havia poluição, a vida era bem mais natural. A criminalidade era inexistente e se caso algum forasteiro quisesse aproveitar de determinada ocasião, os moradores se uniam e o pobre coitado, na marra, aprendia uma lição. A comunicação moderna ainda não dominava o lugar e sobrava mais tempo para as conversas, para as brincadeiras infantis e para o convívio humano.
A vida, no vilarejo, era simples e rica ao mesmo tempo, pois os reais valores eram aproveitados. Tudo do bom que se perdeu nas cidades como a convivência com mais calma e mais conversas entre pessoas de verdade e não só virtuais, ainda lá se mantinha. E como as crianças brincavam!
Havia quatro garotinhas que eram muito amigas. Seus nomes eram Constanza, Paulina, Matilde e Azucena e muito se entendiam e se divertiam. As quatro amigas estudavam pela manhã na mesma escola, tinham quase a mesma idade, mais ou menos doze anos.As quatro meninas se divertiam com as inúmeras brincadeiras que sempre inventavam.
O vilarejo, de certa forma, era ainda bastante rústico. As casas eram simples e pequenas; as ruas, parte delas, eram de terra batida; as casinhas, próximas do rio, não tinham luz elétrica e nem água encanada; havia um poço artesiano com água muito boa para essas famílias. E era numa dessas casas, próximas do rio, que Azucena morava com sua família: avô e avó maternos, a mãe e uma irmã que completara oito anos. O pai, há alguns anos, fora procurar trabalho numa cidade vizinha e até hoje não deu sinal de vida. Ninguém sabe se aconteceu alguma coisa que o impediu de voltar ou se ele aproveitou a oportunidade para se livrar da responsabilidade de cuidar de uma família, porém, Azucena sentia muita falta dele.
E desde bem criança, ela demonstrava uma faculdade não muito comum... não se assustem... vou falar baixinho... mas ela via gente de lá... e ainda conversava com... gente morta, como se dizem.
Quando ela era bem pequenina tinha muito medo, mas sua avó Martina... que aprendeu com sua avó... que aprendeu com sua avó... que nem sabe com quem aprendeu... começou a lhe explicar o que acontecia e, aos poucos, ela deixou de ter muito medo para só sentir um pouquinho. A avó ainda lhe falou que um dia, depois de compreender muito, não terá medo nenhum.
Certo dia, quando Azucena tinha seis anos, ela brincava com alguns brinquedos simples na pequena parte que chamava de seu quarto e onde estava a sua cama, quando percebeu um menino também brincando ali sentadinho. Ela olhou para ele tentando reconhecê-lo, mas não se lembrou de onde. Nunca o havia visto pelo vilarejo. Ela olhou mais uma vez para ele e mesmo sem lembrar passou a brincar e conversar com ele, ficaram amigos, encontrando-se, diariamente, por cerca de três anos. Mas era só Azucena que o via. Depois desse período, a menina não mais o viu. Ela acredita que ele tenha se mudado com a família. Inocente menina! E tantos outros casos a jovenzinha vivenciou.
Houve um tempo em que ela via tantas pessoas do outro lado – refiro-me a outro lado a dimensão onde os espíritos ficam, e são muitos lugares naquela dimensão como se fossem... emissoras de rádio... muitas rádios podemos sintonizar, mas cada uma tem o seu espaço e forma para ser ouvida – que um dia deu um grito, “ahhhhhh...” e lhes pediu: “Quero saber quem é daqui e quem é de lá”. A avó só a observava de longe, pois sabia o que estava acontecendo, e não interferiu.
De repente, um jovem falou: “Sou de lá... e, na verdade, os que você vê aqui são de lá também. De alguma forma você perceberá quem é de lá. Chegamos até você porque sentimos que nos percebe e queremos conversar... não lhe faremos mal”.
Desse dia em diante, Azucena ficou mais tranquila, mas antes de ontem, ela lhes falou que eles precisavam se organizar, pois ela tinha uma vida para viver... brincar... conversar com gente daqui e não ficar com gente de lá o tempo todo. Eles ficaram um pouco tristinhos, mas foi a avó Martina que pediu para Azucena lhes falar. E hoje, a menina iria à festa, simples, de aniversário de sua querida amiga Matilde.
Azucena já lhes avisou: “Só eu quem fui convidada, certo?”
Os olhares foram tristinhos, mas deveriam respeitar, pois a menina os ajudava muito em conversar com eles e lhes explicar muitas coisas que os ajudavam; a avó Martina lhe ensinava.
Azucena levaria um presentinho bem lindo de aniversário, feito pela avó: uma boneca de pano. A avó demorou uma semana para confeccionar a boneca, e essa atividade, a avó Martina também aprendeu com sua avó... que aprendeu com sua avó... que nem sei com quem aprendeu. Mas a boneca estava linda.
Então, Azucena pegou o presente embalado de forma caseira, deu um abraço na avó e lhe agradeceu e foi, bem bonitinha, com seu vestido mais lindo, também costurado pela avó, e seguiu o caminho para a casa da amiga Matilde. Tantos olhinhos ficaram para trás... mas apenas Azucena tinha sido convidada.
A menina, um pouco tímida, chegou à casa da amiga; as outras amigas haviam acabado de chegar. E como as meninas se queriam bem! Se faltasse uma para alguma brincadeira ou só mesmo para conversar em frente à casa de uma delas, já não era a mesma coisa. Para a felicidade de todas, era necessário estarem juntas.
E na festa de Matilde, as quatro estavam muito felizes, pois além de todas estarem, era festa de aniversário e até havia um bolo feito pela mãe da aniversariante. Brincavam tanto! Tudo era motivo de risada e felicidade. E finalmente chegou a hora de cantar o “feliz cumpleaños”, era assim como falavam.
Havia exatamente doze pessoas na festa; as oito restantes eram familiares de Matilde.
A mãe da aniversariante trouxe uma vela branca já usada e, com cuidado, colocou-a sobre o bolo forçando-a para ficar firme e não cair. A canção então começou; as meninas cantavam com alegria e Matilde, em seguida, com um sopro potente, apagou a vela branca de uma só vez.
E naquela alegria toda, Azucena viu os rostinhos de lá ali na festa, e pensou: “O que vocês estão fazendo aqui?” A resposta veio em seguida: “Sei que você nos pediu para ficarmos em casa, mas, Azucena, é só pensarmos em um lugar que já estamos nele”. E mais um... e mais um... e mais um... somando estavam quase todos os visitantes mais comuns... de lá... conhecidos de Azucena.
O que fazer?
Só sei que a menina ficou surpresa e um pouco assustadinha, pois se dera conta de que em todos os lugares a gente de lá poderia estar.
Os olhos da menina ficaram parados observando. A gente de lá ficou um pouco sem graça por estar ali também. Mas Azucena logo lhes falou em pensamento: “Tudo bem, já que estão aqui, podem ficar, mas, por favor, não compliquem ainda mais. Hoje é aniversário de minha amiga e quero continuar feliz”.
Uma menina da gente de lá lhe disse em pensamento que aquele dia também era seu aniversário. Ela estava tristinha. Não estava com sua família. Mas rapidamente Azucena pensou que ela era muito amada e logo estaria num local certo para sua felicidade. Tudo que Azucena passava aos de lá era ensinado pela avó Martina.
Como Azucena ficou um pouco diferente e suas amigas sabiam que ela via gente de lá, Constanza e Paulina se aproximaram da jovem menina e lhe perguntaram se estava tudo bem. Ela voltou mais para o lado de cá, o terreno, e respondeu, com um sorriso, que sim.
O bolo estava muito gostoso, embora sua aparência fosse de total simplicidade e nenhuma cobertura; depois de comerem um pedaço e tomarem suco de limão, foram brincar... e quantas brincadeiras inventavam. Azucena estava entretida com as ações do lado de cá. E corriam um pouco, paravam; brincavam de brincadeiras que não precisavam correr, de outras que eram necessárias as velhas mímicas, de adivinha a minha música e muitas mais... e a gente de lá estava por perto.
E a aniversariante de cá estava muito feliz, mas a aniversariante de lá ainda estava muito tristinha. E Azucena percebeu e logo falou em voz alta para as meninas:
– Lembrei-me de que tenho uma amiga chamada Laurinda e hoje também é o seu aniversário. Gostaria que ela soubesse que ela é muito amada e logo estará num lugar bem gostoso e em paz... E viva a Laurinda!
E a aniversariante de lá ficou emocionada e tão... tão feliz e falou em pensamento: “Obrigada, Azucena, há tanto tempo não me sentia tão feliz”.
Azucena, então, deu-lhe um sorriso. A alegria estava agora dos dois lados.
E as meninas do lado de cá estavam muito alegres. A simplicidade e o coração em paz são combinações perfeitas para se conseguir a felicidade. Mas a hora passou rapidinho e precisavam retornar às suas casas, ainda precisavam estudar para a prova do dia seguinte. Elas, então, se despediram da querida amiga e aniversariante, Matilde; amanhã brincariam mais... e depois... e depois... na verdade, elas queriam brincar por toda a vida. Ah... crianças... como é boa essa fase!
Menos Matilde, que já estava em sua casa, as outras três amigas caminharam juntas por mais uma parte do caminho e logo se separariam para seguirem até as suas casas. E no momento em que se despediam... Meu Deus... o que era aquilo? Um vento muito forte de repente soprou com barulho; o susto foi tão grande que as três não entenderam o que estava acontecendo; elas se abraçaram e buscaram abrigo.
Essa época era de muitas tempestades, mas como aquela, repentina, nunca ninguém relatara.
As meninas correram para uma mercearia e se esconderam. Do estabelecimento, com mais calma, puderam perceber que não era nenhuma tempestade, nenhum vendaval... era apenas um helicóptero pousando num terreno no pequeno vilarejo. Nem elas nem o povo daquele lugar haviam visto uma “máquina” daquela. E quanta curiosidade despertada.
Com o helicóptero já pousado e o motor desligado, o movimento das hélices foi se acalmando. A porta da aeronave foi aberta e um senhor, muito bem vestido, desceu, olhou em direção ao pequeno centro do vilarejo e percebeu que quase todos os moradores estavam por ali querendo saber o que era aquilo e o que estava acontecendo.
‒ Por favor, queiram me desculpar a surpresa e o transtorno ocorridos. Sou Aloísio Chavez Durán, agricultor – o distinto senhor se desculpou e se apresentou.
Enquanto o senhor se apresentava às pessoas que cada vez mais apareciam, curiosas, o piloto desceu e outro senhor também. E quando este último se aproximou, tímido, do senhor Aloísio, os olhos da cor de mel de Azucena encontraram os olhos também da cor de mel do homem.
A menina não podia acreditar... seu coraçãozinho disparou... a emoção veio forte e seu rostinho se transformou na mais pura emocionada fisionomia. Ela saiu da mercearia e veio em direção ao homem, ela nem observou se havia pessoas ou não ao redor, apenas enxergava os olhos de cor de mel do homem. Até que ela se aproximou dele que estava inteiramente compadecido em ver também aqueles pequenos olhos da mesma cor.
‒ Você é Cristián? – a menina perguntou com o rostinho banhado em lágrimas.
‒ Sim, Azucena... minha filha querida.
A menina, devagar, veio e ficou bem em frente ao homem. Abriu os braços, com um certo receio, e tão ternamente se deixou nos braços paternos dos quais tanta saudade a filha sentia. O abraço mais valioso; o momento inesquecível para a pequena e o pai.
Os moradores, que sabiam da história e conheciam Cristián, se emocionaram demais. Até eu me emocionei. Ah, como o amor é maravilhoso!
O senhor agricultor poupou outras palavras, seriam totalmente desnecessárias.
Depois do abraço consolador, a filha olhou para os olhos do pai que baixaram para a sua direção.
‒ Papai, quanta saudade! Em nenhum dia me esqueci de você. Todas as noites...  sonhava que voltaria para nós.
– Sinto muito, minha querida. E em todos os dias só me lembrava de vocês e tanto, tanto de você ‒ o homem falou.
– Mas, papai, por que nos abandonou? ‒ Azucena perguntou.
– Filha querida, saí em busca de trabalho e tanta coisa aconteceu... a vida a cada novo dia me levava para um lugar, até que encontrei um emprego na fazenda do senhor Aloísio e me estabeleci... e com melhores condições voltei para dar uma vida melhor para vocês – Cristián explicou e enxugou as lágrimas de sua menina.
Azucena abraçou mais uma vez o pai querido e pôde perceber seus amigos de lá, todos sorrindo e felizes pela pequena ajuda, a ela, ministrada. Sabe, as pessoas do lado de lá possuem a característica de lerem pensamentos e de se transportarem instantaneamente, então, nem preciso comentar a ajuda permitida.
Depois de um sorriso agradecido aos amigos de lá, Azucena olhou para o pai e lhe perguntou já querendo afirmar:
‒ Vamos para casa, papai? Nossa família também sempre o esperou.
– Sim, minha querida.
O pai pegou na mão da filha e os dois buscaram o caminho para casa. Passaram pelas pessoas que sorriam para eles.
Do lado de cá, Azucena dava a mão para o pai e a outra mão estava dada para Laurinda, sua amiga de lá, e muitos outros amigos do lado de lá também os acompanharam até a casa.
O amor reconstrói sempre. E certamente eles se entenderão.
Bem, agora, deixo-os, leitores, um pouquinho para presenciar o encontro cheio de sentimento, palavras, explicações e abraços da família simples e querida do vilarejo chileno. Meus amigos de lá já me esperam, mas não sou como Azucena que pode vê-los... eu... na verdade, já sou um deles... do lado de lá... e também amiga de Azucena.


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